O Tesouro da Juventude

2015 – 100 anos de Cortázar
Ultimo Round – 1969

As crianças são por natureza ingratas, compreensivelmente, uma vez que apenas imitam seus amados pais; e, as de agora, ao retorno da escola, apertam um botão e se sentam para assistir a série de televisão do dia, e nem lhes ocorre pensar por um só instante nessa maravilha que é a televisão. Por isso, não será inútil insistir junto aos inocentes sobre a história do progresso científico, aproveitando a primeira oportunidade favorável, digamos – na passagem de um avião a jato, para mostrar aos jovens os impressionantes resultados do esforço humano.

O exemplo do “jato” é um dos melhores casos. Todo mundo sabe que, mesmo sem ter viajado em um, o que representam os aviões modernos: a velocidade, o silêncio na cabine, a estabilidade, o raio de ação. Mas a ciência é por antonomásia uma busca sem fim, e os “jatos” logo ficaram para trás, superados por novas e mais portentosas mostras do engenho humano. Mesmo com todos os avanços essas aeronaves tinham muitos inconvenientes, até o dia em que foram substituídos por aviões a hélice.

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Essa conquista representou um grande avanço, pois voando a baixa velocidade e altitude o piloto tinha melhores condições para a definição do rumo e efetuar em boas condições de segurança decolagens e aterrizagens. Não obstante, os técnicos continuaram a trabalhar na procura de novos meios de comunicação ainda mais desenvolvidos, e assim nos deram a conhecer, em breves intervalos duas descobertas capitais: nos referimos aos barcos a vapor e os trens.  Pela primeira vez, e graças a eles, se chegou à conquista extraordinária de se viajar ao nível do solo, com a inestimável margem de segurança que isto representava.

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Sigamos paralelamente a evolução destas técnicas, começando pela navegação marítima. O perigo de incêndios, tão frequentes em alto mar, incitou os engenheiros a procurar um sistema mais seguro: assim foram nascendo a navegação a vela e, mais tarde o remo como o mais vantajoso meio para impulsionar navios.

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Este progresso foi considerável, mas os naufrágios se repetiam de tempos em tempos, pelas razões mais diversas, até que os avanços técnicos proporcionaram um método seguro e avançado de se locomover na água. Nos referimos seguramente, à natação, para além da qual não parece haver progresso possível, embora a ciência seja pródiga em surpresas.

No que toca as estradas de ferro, as suas vantagens eram óbvias em relação aos aviões, mas por sua vez elas foram superadas pelas carroças, veículos que não contaminavam o ar com fumaça de petróleo ou carvão, e que permitiam admirar as belezas da paisagem e o vigor dos cavalos de tiro.

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A bicicleta, meio de transporte altamente científico, se situa historicamente entre a carroça e o transporte ferroviário, sem que se possa definir exatamente o momento de sua aparição. Sabe-se no entanto, o que constitui o último estágio do progresso, que o incomodo inegável das carroças aguçou o engenho humano a tal ponto, que não tardou em se inventar um modo de se viajar incomparável, ir a pé.

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Pedestres e nadadores são a coroação da pirâmide científica, como se pode comprovar em qualquer praia quando observamos os passantes nos calçadões que por sua vez observam admirados as evoluções dos banhistas. Talvez seja por isso que há tantas pessoas nas praias, posto que o progresso da tecnologia, ainda que ignorado por muitas crianças, acaba sendo aclamado por toda a humanidade, sobretudo no período do benefício das férias pagas.

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