A proteção inútil

a protecao inutil

2015 – 100 anos de Cortázar

Ultimo Round – 1969

Eu sei muito bem, sou de uma timidez doentia, e estar no mundo me é ferro e fogo. Até mesmo a água, quase sempre minha aliada, resvala seca e hostil contra esses lábios que a quiseram amêndoas e rendas; ao entardecer, sob a luz ambígua que ainda me permite vagar pela cidade, o perfil das nuvens, esse perfil suavíssimo, lacera brutalmente a minha pele e me obriga a fugir gritando, e refugiar-me sob abrigos. Me aconselharam a andar de metrô para maior segurança, ou para comprar um chapéu de grandes abas flutuantes. De nada adianta que me falem com o tom que suscitam as crianças, eu olho para frente onde sem dúvida sempre há uma andorinha esperando para enfiar sua tesoura em meu pescoço. Os Conselheiros Municipais chegaram a votar créditos para minha proteção, as pessoas se preocupam comigo.

Obrigado, Senhoras e Senhores, gostaria de retribuir tanta gentileza com ternura e civilidade; mas infelizmente, vocês vão estar aí, sempre presentes, e isso é precipício abaixo, é máquina de moer sombra, insuportável exageração de uma bondade armada com garras de coral. Cada vez mais me parece penoso dificultar a existência alheia, mas não há nenhuma ilha deserta, nem bosque de má fama, nem sequer um pequeno curral para me isolar, e de lá, olhar para vocês sob a luz da aliança.
Tenho eu culpa, oh terra povoada de espinhos, de ser um unicórnio?


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