A traição das imagens: isto não é um cachimbo

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A traição das imagens: isto não é um cachimbo (René Magritte – 1928/1929)

Sobre a decrepitude ética: a verdade verdadeira é a minha verdade

Não existe sentido lógico numa discussão intelectual séria quando os lados têm certezas. É da racionalidade da discussão intelectual render-se a argumentos válidos, e revisarem-se conceitos e posições.
Quanto mais militantes as pessoas são, independentemente do espectro ideológico ou filosófico, ao que parece, mais enviesada é a leitura da realidade em favor de posições defendidas. Acredita-se no que convém. Ou na melhor das melhores hipóteses: na crença nas suas crenças.
Nossa irremediável condição de intérpretes (vida e mundo como discurso) faz com que escolhamos o significado dos fatos que convém às nossas convicções. Em busca de conforto intelectual.
Uma pós-inteligência.

Fiéis à “fé” e infiéis aos fatos:
militantes
militantos
militontos.

A retórica persuasiva se sobrepõe ao mínimo denominador comum do que seria a verdade dos fatos, fazendo da mentira (ou das mitologias convenientes), a dinâmica social.
Se embebedando de uma retórica emocional, deformada e manipulada.
Amplificando a onda de irracionalidade.
Tudo sem a menor culpa.
Numa nova face da barbárie.
Que, no entanto, não é sequer nova: “Para homens que têm almas bárbaras, olhos e ouvidos são más testemunhas” – Heráclito de Éfeso: 500 AC)

 

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A preservação das lembranças – Cortázar para se ler no celular

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Os famas para preservar suas lembranças, as embalsamam da seguinte forma: logo que fixada a lembrança com todos os detalhes, as envolvem da cabeça aos pés com uma manta preta e as colocam contra a parede da sala com uma etiqueta: Excursão à Quilmes ou: Frank Sinatra.

Já os cronópios, seres calorosos e desorganizados, deixam as lembranças soltas pela casa, em constante algazarra, e andam no meio delas e quando uma passa correndo, a acariciam com suavidade e dizem: Não vá se machucar! e também: Cuidado com a escada!

É por isso que as casas dos famas são arrumadas e silenciosas enquanto as dos cronópios são uma bagunça com portas batendo.

Os vizinhos sempre se queixam dos cronópios e os famas, balançando a cabeça compreensivamente, vão verificar se as etiquetas (de suas lembranças) estão nos seus respectivos lugares.

(Imagem: Mark Rohtko – 1961)

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Cortázar para se ler no celular

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Condor e Cronópio

Um condor cai com um raio sobre um cronópio que passa por Tinogasta, o encurrala contra a parede de granito, e diz com petulância, a saber:

Condor. — Atreve-se a dizer que não sou belo?

Cronópio. — Você é o pássaro mais bonito de já vi.

Condor. —Mais.

Cronópio. — Você é mais bonito que a ave do paraíso.

Condor. — Atreve-se a dizer que não voo alto?

Cronópio. — Você voa a alturas vertiginosas, e é completamente supersônico e estratosférico.

Condor. — Atreve-se a dizer que cheiro mal?

Cronópio. — Cheira melhor que um litro inteiro da colônia Jean-Marie Farina.

Condor. — Que merda, cara! Você não deixa nenhum espaço para a rapinagem do Condor.

Victor Delfin-Red Inca Condor

Victor Delfin-Red Inca Condor

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Revisitando Dr. Mill̫r РPsicanalista

Phobia
é
um medo
com
PhB

 

psicanalista

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Há 9.500 anos ele era venerado

        Quem era ele? Isto ninguém sabe.

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        Mas como era ele, agora já se sabe.

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http://news.nationalgeographic.com/2017/01/jericho-skull-neolithic-facial-reconstruction-archaeology-british-museum/

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Amor 77 – Cortázar para se ler no celular

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Joseph Albers – Homenagem ao Quadrado

 

Amor 77

E depois de fazer tudo o que fazem, se levantam, se banham, se entalcam, se perfumam e, assim progressivamente, vão voltando a ser o que não são.

Fim

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Joseph Albers – Homenagem ao Quadrado

 

 

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Tina Modotti

O mastodôntico Diego Rivera e a pomba Frida Kahlo (ou seria o contrário?) pelas lentes e olhos da  fotógrafa e ativista italo-americana-mexicana Tina Modotti.

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O que esta fotografia nos diz do ativismo político de Tina Modotti ou sobre Diego Rivera ou Frida Kahlo? Nada ou quase nada. A fotografia é apenas imobilidade e tempo.

 

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Os menires de Carnac: possivelmente a primeira obra (conhecida) da arquitetura humana

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Podem ter até 6.000 anos

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http://www.lefigaro.fr/culture/2016/12/15/03004-20161215ARTFIG00230-les-menhirs-de-carnac-bientot-au-patrimoine-mondial-de-l-unesco.php?utm_campaign=Echobox&utm_medium=Social&utm_source=Facebook#link_time=1481819433

 

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Intolerâncias – Cortázar para ler no celular

2015 – 100 anos de Cortázar
Ultimo Round – 1969

Intolerâncias

intolerancias 1

Nunca pude tolerar bocejos, sobretudo na boca de um agente de polícia. É mais forte do que eu, se numa esquina vejo um policial bocejar, me acerco dele e lhe dou destas bofetadas de ida e volta que se parecem com o bater de asas de uma pomba. Isto já me custou três costelas fraturadas e um total de quinze meses de prisão, sem contar chutes e outros machucados. Mas não está em mim impedir isto, e a única maneira de se evitar tantas desgraças é cruzar apenas com policiais que amam o seu trabalho e se mantêm totalmente focados no controle do tráfego.

Com padres, é ainda pior, porque quando surpreendo um padre bocejando minha indignação ultrapassa todos os limites. Vou à missa o mais que posso, e das primeiras filas vigio atentamente o oficiante. Se o surpreendo bocejando no momento da elevação, como já ocorreu duas vezes, algo mais forte que eu me precipita altar a cima, e nem queiram saber o resto. Existem volumosos relatos na cúria, e em algumas igrejas sou anátema e defenestração apenas me aproximo do nártex.

Eu pessoalmente adoro bocejar, porque é higiênico, meus olhos se enchem de lágrimas que arrastam consigo numerosas impurezas. Mas jamais se me ocorreria fazê-lo enquanto espero, com o bloco de estenografia nas mãos, que o senhor Rosenthal me dite uma dessas cartas onde ele nega alguma coisa com melosa verborragia. Às vezes tenho a impressão que o senhor Rosenthal se preocupa com o fato de que eu não boceje, porque minha concentração no trabalho o tem obrigado a aumentar o meu salário.

intolerancias 2Estou quase seguro de que se alguma vez se me escapasse um bocejo, o senhor Rosenthal ficaria mudo e agradecido, visto que tanto interesse profissional o inquieta. Mas, eu dissimulo minuciosamente os bocejos que a partir das quatro e meia da tarde se precipitam no meu palato e garganta; por isso, se ao sair, vejo bocejar um policial, não posso conter a indignação e me precipito a dar-lhe bofetadas.  É curioso, mas o faço sem o menor prazer, um pouco como se nesse momento eu fosse o senhor Rosenthal e ao mesmo tempo o policial, ou seja, como se o senhor Rosenthal estivesse me esbofeteando em plena rua.

Quase prefiro os pontapés e o calabouço, ou a excomunhão, quando é um padre, porque então se trata de mim, unicamente de mim, do que nesses episódios em que ninguém sabe bem, quem é quem.

 

Texto: Intolerâncias de O Último Round (Julio Cortázar)

Ilustrações: Jean-Michel Folon

 

 

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O show tem que continuar

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