Intolerâncias – Cortázar para ler no celular

2015 – 100 anos de Cortázar
Ultimo Round – 1969

Intolerâncias

intolerancias 1

Nunca pude tolerar bocejos, sobretudo na boca de um agente de polícia. É mais forte do que eu, se numa esquina vejo um policial bocejar, me acerco dele e lhe dou destas bofetadas de ida e volta que se parecem com o bater de asas de uma pomba. Isto já me custou três costelas fraturadas e um total de quinze meses de prisão, sem contar chutes e outros machucados. Mas não está em mim impedir isto, e a única maneira de se evitar tantas desgraças é cruzar apenas com policiais que amam o seu trabalho e se mantêm totalmente focados no controle do tráfego.

Com padres, é ainda pior, porque quando surpreendo um padre bocejando minha indignação ultrapassa todos os limites. Vou à missa o mais que posso, e das primeiras filas vigio atentamente o oficiante. Se o surpreendo bocejando no momento da elevação, como já ocorreu duas vezes, algo mais forte que eu me precipita altar a cima, e nem queiram saber o resto. Existem volumosos relatos na cúria, e em algumas igrejas sou anátema e defenestração apenas me aproximo do nártex.

Eu pessoalmente adoro bocejar, porque é higiênico, meus olhos se enchem de lágrimas que arrastam consigo numerosas impurezas. Mas jamais se me ocorreria fazê-lo enquanto espero, com o bloco de estenografia nas mãos, que o senhor Rosenthal me dite uma dessas cartas onde ele nega alguma coisa com melosa verborragia. Às vezes tenho a impressão que o senhor Rosenthal se preocupa com o fato de que eu não boceje, porque minha concentração no trabalho o tem obrigado a aumentar o meu salário.

intolerancias 2Estou quase seguro de que se alguma vez se me escapasse um bocejo, o senhor Rosenthal ficaria mudo e agradecido, visto que tanto interesse profissional o inquieta. Mas, eu dissimulo minuciosamente os bocejos que a partir das quatro e meia da tarde se precipitam no meu palato e garganta; por isso, se ao sair, vejo bocejar um policial, não posso conter a indignação e me precipito a dar-lhe bofetadas.  É curioso, mas o faço sem o menor prazer, um pouco como se nesse momento eu fosse o senhor Rosenthal e ao mesmo tempo o policial, ou seja, como se o senhor Rosenthal estivesse me esbofeteando em plena rua.

Quase prefiro os pontapés e o calabouço, ou a excomunhão, quando é um padre, porque então se trata de mim, unicamente de mim, do que nesses episódios em que ninguém sabe bem, quem é quem.

 

Texto: Intolerâncias de O Último Round (Julio Cortázar)

Ilustrações: Jean-Michel Folon

 

 

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O conteúdo não é um ponto de partida mas um ponto de chegada.


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O show tem que continuar

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O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalingua

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O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalingua – título de um artigo de Haroldo de Campos

Id-Grids and Ego-Graphs – Jacob Drachler para o Finnegas Wake de James Joyce
A partir de Brain Picking: https://www.brainpickings.org/index.php/2013/05/24/id-grids-and-ego-graphs-jacob-drachler/

 

 

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Como viver com mistérios na era do conhecimento

Mimmo Paladine para Ulysses de James Joyce

Mimmo Paladine para Ulysses de James Joyce

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eu

(não)

sou

(não)

eu

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(A partir de uma resenha crítica sobre Jacob Needleman e a oposição entre duas verdades).

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A matemática do racionalismo

Uma das obras fundadoras do articulador do concretismo nas artes visuais. No seu momento inicial quando o racionalismo é praticamente matemático.
Ideia visível – Waldemar Cordeiro

 

 

Ideia visível - 1956

Ideia visível – 1956

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Toda esfera é um cubo – Cortázar para ler no celular

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2015 – 100 anos de Cortázar
Ultimo Round – 1969

Desde logo o primeiro problema é como sempre, minha tia. Dizer que toda esfera é utoda esfera 2m cubo e vê-la intolerar cutâneamente ao espinafre, é a mesma coisa. Fica parada na porta, apoiada na vassoura, e me olha com olhos onde adivinho o desejo que tem de cuspir em mim. Depois vai varrer o quintal, mas sem cantar os boleros que são a alegria matinal da nossa casa.

A segunda dificuldade está na esfera ela mesma. Apenas a coloco precisamente sobre um plano inclinado onde qualquer cubo ficaria estático, esta desgraçada usa todas as suas patinhas e se atira no chão como um relâmpago, sem contar, que ademais, segue viagem até debaixo do armário onde os flocos de poeira, por rara coincidência, estão sempre reunidos em perigosa quantidade. Tira-la de lá é uma perfeita porcaria, arregaço as mangas, mas sou alérgico ao pó, começo a espirrar de modo que grandes nuvens de poeira saem junto com o cubo o que me leva a uma crise asmática, tenho que faltar no escritório, o senhor Rosenthal me ameaça com o desconto de um dia de salário, meu pai retoma às noites em que passava na intempérie quando da expedição ao deserto, e minha tia acaba sempre por pegar a esfera e coloca-la onde a família é de opinião que ela deve ficar, quer dizer: na estante da sala entre as obras do Dr. Cronin e o passarinho empalhado que foi do meu irmão que cerrou os olhos na primeira infância.

toda esfera 3

Meu pai já por duas vezes me perguntou porque me obstino nessa idiotice, e me digno a responder que é porque tanta passividade, me deixa arrasado. Será que todo mundo aceita que essa maldita bola, a seu bel prazer, imponha sua vontade? Uma vez mais lutarei contra a esfera, que sei, é um cubo; a colocarei num plano inclinado, minha tia se espinafra, o ciclo de sempre, os flocos de poeira.

E então, esperarei sarar da crise asmática e em seguida colocarei o cubo num plano inclinado, porque é aí que ele tem que ficar e não na estante da sala ao lado do passarinho empalhado.

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Desenhos: Jean-Michel Folon

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Bessie Love – 1920

A linda Bessie Love, atriz de cinema mudo dos anos 1920 que seguramente teria feito sucesso nos rebeldes anos 60.

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Bessie Love – History in Pictures

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A Arte funda a História

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A Arte funda a História
(Martin Heidegger)
Somos produtos da, e submetidos à, cultura.
Cultura é costume, hábito, norma, regra, repetição não crítica, comunicação (pessoal ou de massa), as retóricas aceitas. As lógicas dos sistemas presentes.
A cultura nos parece ser o normal. O universalmente válido. A essência. A verdade.
A obra de arte (“enquanto exceção e singularidade solitária”) “é justamente uma condição rara e privilegiada de distanciamento crítico em relação à cultura”.
Cultura ̩ regra, arte ̩ exce̤̣o Р(Jean-Luc Godard).
O historiador fala das coisas que foram,
o poeta fala das coisas que poderiam ser
e sobretudo deveriam ser.
“Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.”
(Trovador proven̤al Рvia Ezra Pound?).
Os artistas ṣo a antena da ra̤a Р(Ezra Pound).
eu sou eu,
assino arte
(filosofia, ciência)
para além
da cultura e religião,
e seja o que Deus quiser.

 

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Vestir uma sombra – Cortázar para se ler no celular

2015 – 100 anos de Cortázar
Ultimo Round – 1969

vestir uma sombra

A coisa mais difícil é abordá-la, saber o seu limite, ali onde se confunde com a penumbra, ao borde de si própria. Escolhê-la entre tantas, afastá-la da luz de que toda sombra respira sigilosa, perigosamente. Começar então a vesti-la como que distraído, sem mover-se demasiadamente, sem assustá-la ou dissolvê-la: operação inicial onde o nada se esconde em cada gesto.

A lingerie, o transparente corpinho, as meias de seda que desenham uma ascensão sedosa até os músculos. Tudo ela consentirá em sua momentânea ignorância, como se acreditasse estar brincando com outra sombra, mas de repente se inquietará quando a saia cingir a sua cintura e sentir os dedos abotoando a blusa entre os seios, roçando a garganta que se alonga até perder-se num jorro obscuro.

Ela rechaçará o gesto de coroá-la com uma esvoaçante peruca loira (esta aura imprecisa rodeando um rosto inexistente!) e ter-se-á que apressar-se a desenhar a boca com a brasa de um cigarro, deslizar anéis e pulseiras para dar-lhe essas mãos com as quais resistirá inicialmente enquanto os lábios, apenas nascidos, murmuram a queixa imemorial de quem desperta para o mundo.

Faltarão os olhos, que brotarão das lágrimas, a sombra por si mesma completando-se, para melhor lutar, para negar-se. Inutilmente comovedora quando o mesmo impulso que a visitou, a mesma sede de vê-la conformar-se perfeita a partir do confuso espaço, comece a desnudá-la, a descobrir pela primeira vez sua forma que em vão busca proteger-se por trás de mãos e súplicas, mas consentindo lentamente na queda, num brilhar de anéis que rasgam o ar seus úmidos vaga-lumes.

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Eu, como todo mundo, me chamo Eric Satie

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Antes de escrever uma obra, eu a percorro inúmeras vezes, acompanhado de mim mesmo.

Esqueci o guarda-chuva no elevador: ele deve estar muito preocupado de ter me perdido.

O músico é o mais modesto dos animais mas também o mais orgulhoso.

Eu vim ao mundo muito jovem, numa idade muito antiga.

lorchestre de satie

http://www.jjotademoraes.com.br/2015/08/erik-satie-o-mais-excentrico-dos-musicos/

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